domingo, 14 de agosto de 2011

O meu coração é...

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.

Caio Fernando Abreu

domingo, 7 de agosto de 2011

And there she goes...

Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.


Caio Fernando Abreu

sábado, 6 de agosto de 2011

"Save you from yourself, before you start to deal with everyone else"

Não creio que vá conseguir tirar algo de útil de tudo isso que vem acontecendo, desse vazio que estou sentindo, dessa depressão toda. Minha inspiração parece ter fugido de mim e para um desabafo, não acho que conseguiria transformar isso numa crônica ou em uma metáfora. Não quero maquiar nada, quero apenas arrancar daqui de dentro tudo isso que vem me fazendo mal ultimamente. Dramatizar um pouco, reclamar das injustiças do mundo todo. Dizer que não sou adequada a nada, nada que me proponha a fazer. Dizer que meus pais não me compreendem, coisa da qual nunca reclamei. Reclamar da vida. Mas então paro por apenas um segundo e percebo o quão ridícula estou sendo, por não conseguir me mover, tanto física como psicologicamente falando. Não consigo me mover e procurar uma ajuda qualquer. Poderia usar uma desculpa pra beber até cair e então me entorpecer, pois aí eu esqueceria. Mas nem isso me sinto habilitada a fazer. É um vazio tão grande... Um vazio que eu não imaginava que fosse realmente possível de se sentir. E não sei nem se é doloroso mais. É apenas vazio, escuro e seco. O vazio da falta de obrigações na minha vida. Vazio da falta do que lutar. Ou talvez por ter muito pelo que lutar e não ter incentivo algum.

Parece egoísmo falar deste modo, quando seus pais olham pra você e dizem que é só mais uma crise adolescente, que não há motivo algum para uma depressão como essa, pois "eu tenho tudo". Eu não tenho tudo. Quando me vejo obrigada a me refugiar em um mundo que nem existe, vejo o quão perdida e sem rumo eu estou. Pessoas que eu queria próximas de mim por achar que as que eu já tenho aqui não são suficientes e apenas para salientar ainda mais a minha solidão. Perceber que ninguém compreende o que você está querendo dizer e enquanto você fala, repete e repete mais mil vezes, os pensamentos de quem está ali do seu lado estão longe, muito longe. Você apenas conversa com corpos que não estão sequer lhe dando ouvidos e repetem roboticamente expressões já gravadas na memória. "Esqueça isso porque não vale a pena". "Não acredito que ainda está se sentindo assim por isso". Ou mesmo "cresça". Eu adoraria crescer, mas quando me vejo nessa situação toda onde pareço não ter uma saída, gostaria de ter estacionado. Vejo que não é nem um pouco fácil conviver no mundo adulto. Num mundo onde um é mais hipócrita que o outro. Onde pessoas vão passar por cima de você e sorrir como se nada tivesse acontecido. Onde pessoas vão te enganar, mentir pra você.

E eu já estou cansada de tentar mostrar pra todo mundo que eu estou bem, enquanto passo dia após dia dentro do meu próprio quarto. Criei um mundo confortável aqui dentro e adquiri o medo. O medo que eu nunca tive de sair lá fora e lutar pelo que eu mais queria. Pessoas nos transformam em seres mais fracos, ao invés de fortalecerem a sua mente, eles apenas te enfraquecem mais ainda. Te trazem para baixo e mostram o quanto você é melhor quando está sozinho. Deveria ser nobre e digno querer alguém, necessitar uma presença amiga ou até mesmo um amor. Mas dia após dia eu me vejo cercada de gente que busca cada vez mais a solidão. Porque é mais fácil lidar consigo mesmo do que lidar com outras pessoas.

Não se pode aceitar as diferenças, não se poder ser diferente. Para estar bem com os outros, é de extrema importância não se mostrar. O mundo nos ensina a falsidade como arma de fogo para qualquer empecilho. Um sorriso já perdeu há muito tempo seu real significado e lágrimas já não comovem mais porque nunca é possível saber quando são verdadeiras. E toda a verdade agora se esconde em momentos íntimos, quando nos encontramos sozinhos em nossos quartos, presos dentro de nosso próprios pensamentos. Ali, num quarto escuro e isolado dentro de nossas mentes, está nosso verdadeiro "eu", que precisou ser trancado e escondido do mundo, nos obrigando a colocar em nossos rostos esse sorriso de simpatia. Até nossos pensamentos estão sujeitos a se trancarem num canto escuro de nossas mentes e, de certo modo, mesmo sozinhos, às vezes temos medo de lidar com nossos próprios pensamentos. Porque às vezes eles nos assustam, não nos conhecemos de verdade. O mundo nos proibiu da verdade.

E daqui de onde escrevo, de longe, mas talvez tão perto, presa em meu próprio mundinho, as coisas seriam menos complicadas se ninguém tivesse medo da verdade do outro. Mas quando se tenta dizer a verdade, tudo que dizemos, parece apenas um grande drama literário cheio de palavras bonitas, metáforas e lições de moral pra gente que gosta de ler. Mais nada. Vai passar batido como se fosse só mais um texto fictício e as pessoas vão passar por ele, ler, gostar. E fingir que é apenas uma revolta imaginária. Vão fingir que esse conflito interno não existe. Ninguém conhece ninguém por dentro e os únicos capazes de colocar um pouco mais de verdade no mundo somos nós mesmos.

Mas ninguém quer, porque a verdade assusta. E machuca.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Breakout

“Pensei que você já tinha mandado o Beckett pro inferno, Gabe...” McCoy comentou indiferente, dando uma longa tragada em seu cigarro e o oferecendo para mim em seguida, mas eu nem prestei atenção nele quando acenei para o longe, do outro lado do pátio, onde William estava e acenara para mim. Eu apenas sorri com um pouco de ironia para o meu amigo e saltei da arquibancada, onde estávamos sentados.

“É claro, caro Travie... Exatamente do mesmo modo que você vai mandar aquela sua namorada pra lá também.” Eu ri, ganhando um simpático dedo do meio do meu amigo, mas eu apenas lhe dei costas e atravessei o pátio, acenando para que William me esperasse. Ele logo se despediu dos amigos que quando viram eu me aproximando riram entre si, se entreolhando, mas eu apenas continuei parado ali, esperando William vir pra perto de mim e então o cumprimentei com um abraço, como sempre fazíamos.

“Como você está, Gabe?” Ele disse sorrindo, tirando seus cabelos do rosto de um jeito meio desajeitado e os prendendo atrás da orelha. Eu sorri.

“Bem, bem... Na verdade, você ficou sabendo que nós fomos desclassificados para o próximo torneio de basquete? Estou deprimido...” Eu disse, realmente demonstrado minha chateação por me lembrar daquilo. “Eu sabia que deveria ter treinado mais!”

“Tá brincando?” Ele disse quase espantado. “Você é o melhor jogador do time, Gabe!” Ele disse empolgado, mas eu acho que olhei para ele de um modo tão surpreso que aos poucos um tom avermelhado foi tomando conta das bochechas dele, até que ele estivesse com elas inteiramente vermelhas como dois tomates. E então ele mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça. “Eu acho, pelo menos...” Ele disse baixíssimo e provavelmente precisou de um esforço gigantesco para olhar novamente para mim.

Não perguntei “o quê”, não olhei para ele de um modo estranho para deixá-lo ainda mais constrangido. Na verdade, sempre admirei o modo como aquele garoto sempre dizia alguma besteira que me fazia sorrir, mesmo quando eu estava na pior das situações. E ele nem me conhecia muito bem, embora parecesse que me conhecia bem melhor que meus melhores amigos, ou aqueles que se diziam ser, pelo menos. Talvez porque William fosse um pouco mais atencioso que eles.

Às vezes, tudo que eu queria era ficar perto dele, apenas para me sentir bem daquele jeito. E, sempre chega aquele certo momento que, ou você pensa ou você age. E eu sempre preferi agir duas vezes antes de pensar.

“Você quer sair daqui, William?” Eu disse depois de um tempinho que permanecemos naquele quase desconforto momentâneo e ele sorriu. Só havia o pequeno detalhe de que eu nunca havia chamado William pra sair comigo. Nós, na verdade, nunca nos falávamos fora do colégio. Vez ou outra trocávamos algumas mensagens no Facebook, mas nada que significasse muita coisa, afinal, eu tinha os meus próprios amigos e ele os dele.

Ele fez uma careta engraçada e eu pude perceber que ele apertou com mais força os dedos na alça da mochila que estava pendurada em apenas um de seus ombros. William tinha essa mania de fazer essas caretas o tempo todo.

“Claro...” Ele e eu começamos a caminhar juntos para a saída do colégio. “Pra onde vamos?”

Eu soltei uma risada.

“Eu não tenho idéia. Mas estou com meu carro... Pensaremos em alguma coisa.” Eu pisquei para ele e ele sorriu, ficando um pouco corado. Não falamos mais enquanto atravessávamos o portão com tranqüilidade, como se não estivéssemos matando as aulas. O guardinha que cuidava do portão nesse turno era absolutamente camarada com os alunos, então era muito mais fácil matar as aulas do período da tarde.

Eu abri a porta do carro pra ele, embora soubesse que ele era um amigo como outro qualquer e que não fosse necessária toda aquela cortesia.

“Bem, você conhece esse lugar há muito mais tempo que eu...” Ele comentou e sorriu e eu apenas sorri de volta para ele. Era verdade, eu conhecia muitos lugares em Nova Jersey e, principalmente, um em especial. Mas não tinha certeza se era o lugar ideal para se levar um colega de escola que me considerava o melhor jogador de basquete do time. Travis e os outros não gostavam da minha amizade com William, diziam que era ruim pra minha imagem e que isso acabaria mal pra mim, pois o garoto era “estanho”. Quase podia ouvir a voz de Travis na minha cabeça dizendo para que eu não falasse mais com o Beckett.

“É, eu conheço um lugar.” Eu sorri confiante e acho que o desafio era o que mais me fazia ir afundo com isso.

Eu no fundo sabia onde estava me metendo e em que tipo de terreno eu estava pisando. E para ser realmente sincero, eu estava entrando cada vez mais naquele jogo apenas pelo desejo absoluto de saber o que aconteceria a seguir. Apenas porque não era convencional.

Durante o caminho, William se manteve entretido com os meus CDs, elogiando vários deles. Eu não conhecia o gosto musical do garoto, mas a julgar pelos que ele escolhia para tocar e as faixas que preferia executar, tinha um ótimo gosto, bem similar ao meu. Isso era interessante, pois, eram poucos dos meus amigos que “combinavam” comigo por completo.

Mas ainda discordava plenamente da opinião de Travis sobre William estar “dando em cima de mim”. Sempre achei o Beckett um garoto tímido demais para dar em cima de alguém. Ele não tinha muitos amigos, tudo bem, eu podia compreender isso. Também não era realmente o tipo de garoto que as garotas preferiam, mas de qualquer forma, nunca achei que ele me “desse mole”.

Pude observá-lo olhar por todo o lugar, enquanto eu estacionava meu carro entre duas árvores próximas ao lago, numa espécie de bosquezinho numa parte bem afastada da cidade. Nós dois descemos do carro, enquanto William deixava alguma rádio que ele gostava tocando ali no rádio, num volume não muito alto. Então nós nos sentamos no capô do carro, ambos observando o horizonte, ao longe. Eu apanhei minha mochila, remexendo nas coisas ali dentro para buscar uma garrafa que havia dentro dela, jogando-a de canto no capô quando consegui o que queria. William então olhou para mim.

“O que é isso?” Ele indicou com um gestou, enquanto eu abria a tampa da garrafa, sentindo o forte cheiro de álcool que saía dela. Bebi um gole longo, a garrafa estava já pela metade e aparentava ser uma inofensiva garrafinha de água, eu então a ofereci para ele.

“Experimenta.” Sorri, no intuito de incentivá-lo e ele fez uma careta ao cheirar o bico da garrafa e depois disso beber um gole seco, que pareceu descer a contra gosto pela sua garganta o fazendo forçar uma careta desgostosa.

“Há quanto tempo faz que isso tá na sua mochila, Gabriel?” Ele reclamou, me entregando novamente a garrafa com nojo, limpando a boca com as costas das mãos.

“Umas três semanas, eu acho.” Eu ri, bebendo mais um gole e tampando a garrafa tranquilamente e a deixando também de lado. Passamos a observar o lago, que estava um pouco longe de nós, em um quase silêncio, que só era quebrado pela música ao fundo.

“Deve saber como fazer as garotas se sentirem especiais, não é, Gabe?” Ele comentou de um jeito até espontâneo no momento, mas depois ele começou a corar ao perceber o que havia dito e eu não consegui agüentar, acabei rindo. “Não... Não! Não foi isso que eu... Merda!”

“Relaxa, Bill.” Eu sorri, apoiando uma mão no ombro dele. “Relaxa.” Ele então me olhou.

“You make me dizzy running circles in my head

One of these days I'll chase you down

Well look who's going crazy now

We're face to face my friend,

Better get out.”

“Na verdade... Eu nunca cheguei a trazer ninguém aqui.” Eu confessei, desviando o meu olhar para o lago novamente. Eu, logo eu, não sabia o que estava fazendo. Logo, eu não podia ter controle algum sobre a situação.

“Eu agradeço pela parte que me toca!” Ele riu, dando um soquinho no meu braço, me fazendo rir também. E meus olhos se prenderam aos dele.

Poderia soar da maneira mais ridícula se eu dissesse que foi como um daqueles momentos idiotas de filmes românticos em que o par romântico acaba se olhado e o olhar de um é capturado pelo outro e então a tal “magia” acontece. E era completamente ridículo, mas no momento, era a única comparação boa o suficiente para descrever o momento mais estranho da minha vida.

E a verdade mais sincera da minha vida é que eu não fazia a mínima idéia do que esse garoto tinha que prendia tanto a minha atenção.

“You know you make me break out

make me break out

I don't want to look like that

I don't wanna look like that.”

William pousou uma das mãos sobre a minha coxa e permaneceu me olhando, enquanto mordia o lábio inferior demonstrando toda a incerteza de quanto poderia avançar com aquilo. E de certa forma, ele estava conduzindo a situação, pois parecia muito mais certo do que eu quanto ao que fazer. Eu estava, pela primeira vez, me deixando levar, me deixando conduzir. Eu não sabia nem se eu queria, estava apenas deixando que ele decidisse por mim. Me limitei a observar e obedecer. Mas não tanto quando ele se aproximou um pouco mais e invadiu meu território e eu instintivamente recuei. Não recuei porque não queria, recuei porque não conhecia aquele território. Recuei porque estava com medo de experimentar.

Mas eu queria. E dava pra ver.

“You can see this on my face

It's all for you

The more and more I take

I break right through.”

Ele sorriu, me passando uma espécie de confiança. Naquele momento eu tive certeza absoluta de que aquilo não era nada novo para ele, ou pelo menos, não tanto quanto era para mim. Mas eu deixei de recuar, querendo ou não, eu deixei. Ele apenas pressionou os dedos em minha coxa e sua outra mão contornou minha nuca, eu permanecia observando o rosto dele, que agora se aproximava do meu, mas eu não sabia o que fazer e como agir. Ele continuava sorrindo e isso de certa forma me confortava.

Meus olhos permaneceram abertos quando os lábios dele tocaram os meus e ele começou a massagear minha nuca. A boca dele só roçava contra a minha e, apesar de sutil, havia o toque levemente rude por ser uma boca masculina tocando a minha. Eu respirei fundo e fechei meus olhos e aos poucos fui abrindo meus lábios e deixando minha boca conhecer a dele. Ainda com receio, pousei a mão em sua cintura e o puxei pra perto e, de repente, eu já sabia exatamente o que fazer. Meus lábios tomaram conta dos dele e eu empurrei a minha língua pra dentro da sua boca, sentindo um calafrio percorrer toda a minha espinha quando nossas línguas começaram a se misturar e eu pude sentir o gosto da boca dele.

O toque era rude e até um pouco grosseiro, mas tinha um quê delicado vindo da parte dele. Ele me puxou um pouco para si e eu acabei por inclinar meu tronco sobre ele, fazendo com que William se deitasse no capô do meu carro e com isso, aprofundamos o beijo. Minha língua percorria todos os cantos da boca dele, enquanto ele mordiscava os meus lábios. Eu apenas separei minha boca da dele para tomar fôlego e olhar pra ele.

Poderia fugir naquele momento, mas o modo como ele sorriu para mim me fez beijá-lo novamente.

E agora eu sabia o que estava fazendo.

“Putting me on my back again.

I may be crazy, little frayed around the ends

One of these days I'll phase you out

Burn it in the blast off, burn it in the blast off

Watching me crawl away

Try to get out, try to get out

You know you make me break out

Make me break out.”

domingo, 12 de junho de 2011

"O melhor é não tentar olhar..."

De olhares tão firmes dos lábios mais finos
Que o melhor é não tentar olhar
As palavras saem sob efeito
De algo que não deveria provar

Olha ali está
As pernas e braços na pista convulsos que não querem parar
E é ali que está
O filtro de toda timidez que impede a disritmia dos movimentos

Os drinques e goles à fazem se soltar
Nunca se acostuma com efeitos que álcool proporciona

Ela está alta
Ela está...

As coisas mais loucas que ela diz
São perfeitas em ouvidos alheios
As coisas mais loucas...

Olho um instante para ela
Com seus sorrisos perigosos de embriaguez

Bailando em nuvens de nicotina no ar
Sob luzes piscantes
Tão coloridas

Já não há mais o que alimente ao tédio
Nem mais remédios para experimentar

Ela está alta
Ela está...

As coisas mais loucas que ela diz
São perfeitas em ouvidos alheios
As coisas mais loucas...

De olhares tão firmes e lábios mais finos
Que o melhor é não tentar olhar
Mantem-se de pé, é um milagre
Que faz essa menina continuar
Dizem aquela língua capaz de cortar
Falam ser do sexo frágil
Mas não se aplica em nada.

As Coisas Que Ela Diz, Colombia Coffee

sábado, 4 de junho de 2011

Tão inconveniente...

Você me liga nas horas mais impróprias
Você às vezes é tão indecente
Me diz mentiras que destroem a alma
E ainda me pede pra jurar, pra jurar amor pra sempre

Você me xinga pra vizinhança
E me despreza na frente dos amigos,
Me provoca enquanto dança

Conta a verdade
Toda a verdade quando não quero isso...

Você é tão inconveniente
E ainda quer que eu jure amor pra sempre.
Você é tão inconveniente
E ainda diz que vai me amar pra sempre.
Você é tão inconveniente
E ainda quer que eu jure amor pra sempre
E ainda diz que vai me amar pra sempre

Você é parte do que eu preciso
Mesmo quando penso que não é
Você é quase tudo o que eu quero
Mas sabe me tratar como um qualquer

Você me xinga pra vizinhança
E me despreza na frente dos amigos,
Me provoca enquanto dança.

Conta a verdade
Toda a verdade quando não quero isso...

Você é tão inconveniente
E ainda quer que eu jure amor pra sempre.
Você é tão inconveniente
E ainda diz que vai me amar pra sempre.
Você é tão inconveniente
E ainda quer que eu jure amor pra sempre
E ainda diz que vai me amar pra sempre

Você é tão inconveniente
E ainda quer que eu jure amor pra sempre
E ainda diz que vai me amar pra sempre
Você é tão inconveniente

E ainda quer que eu jure amor pra sempre
E ainda diz que vai me amar pra sempre.


Barão Vermelho

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manuel de Barros